As semanas seguintes foram ótimas.
Recebemos muitas visitas, já estávamos adaptadas a rotina hospitalar. Me sentia
confiante e mais disposta a permanecer deitada.
Conhecia todas as técnicas e os médicos. Já sabia o dia que a Kátia e a
Lívia estariam no plantão era o dia da beleza. Elas alagavam o quarto inteiro
me dando banho e lavando meu cabelo. "Minha preta tem que estar
cheirosa". Era assim que a Katinha me chamava. Elas me alegravam. São muito
queridas e animadas. No outro dia ficava aguardando o cuidado e carinho da
Carlinha, que sempre trazia novidades sobre o seu filho Yago. "Ele fez uma
nova seleção de estágio". Eu torcia junto.
Cada um que vinha nos ver deixava um pouco de amor e força. Não contava mais há quanto tempo estava internada, apenas as semanas que havíamos conquistado.
Minha
bebê estava crescendo e a cada ultra o meu colo parecia responder ao repouso. A
bolsa amniótica voltou para a cavidade uterina e eu e ela estávamos saudáveis.
Me sentia confiante que chegaria até 30 semanas. Era essa a minha meta pessoal e depois pensaria em alcançar a idade gestacional que eu nasci. Uma bebê prematura de 7 meses. Para mim e para os médicos, seria "quase" uma bebê nascida à termo.
Meu marido ia ser padrinho de casamento em campos dos Goytacazes. Estávamos no final da 26° semana e, embora não conseguisse dormir direito e sentisse muitas dores na coluna, me sentia animada e feliz. Fazíamos planos para a 28° semana. Queríamos fazer um chá de bebê no quarto da semi intensiva.
Os banhos no leito passaram a ser um momento de conexão com a barriga. Adorava dar banho na minha bebê. Fazia carinho e conversava com ela. As técnicas me contavam sobre a sua semana. Eu dava conselhos. À tarde, atendia meus pacientes por Skype. Já não sentia falta de me levantar e andar. Pedia para inclinarem ainda mais a maca. "Isso deve ser o suficiente".
No dia que completei 27 semanas comecei a sentir fortes dores na coluna e a barriga pesada. O tampão mucoso começou a sair em maior quantidade.
De madrugada, senti uma dor muito forte e percebi um sangramento. Chamei a enfermagem. Tocaram meu colo. A cerclagem havia laceado. Estava com 1cm de dilatação.
Minha GO veio me ver logo cedo. Coloquei o sonar. Não acusou nenhuma contração, mas preferiram começar a medicação para evitá-las. As dores eram horrorosas, eu chegava a ficar sem ar.
Meu exame de sangue deu uma alteração na PCR (proteína c reativa). Isso ocorre quando há um processo infeccioso. Era o meu colo. O ponto da cerclagem estava inflamado. Justo aquele pontinho salvador. #poxinha
Passei o final de semana em observação. Fiquei muito mal. Chorei o tempo todo. Tive muito medo de dormir e entrar em trabalho de parto.
A noite o médico da rotina conversou comigo e me pediu calma. A enfermeira falou sobre o seu parto e sua experiência de quase morte e superação. Todos me diziam para acreditar. Ter fé. Eu pedia tempo. Alguns dias a mais para que minha bebê não fosse tão prematura. "Mas para que você quer mais tempo? Quem decide isso é Deus. Acredite e confie. Vai dar tudo certo!"
Comecei a começar o tempo todo com ela. Dizia o quanto ela era desejada e amada. Que ela precisava ser austera e determinada. Que eu, seu pai e nossa família estaríamos sempre ao seu lado. Que quando ela estivesse pronta, eu também iria estar.
Engraçado que 3 dias antes dela nascer um casal de amigos nossos nos enviou a foto de um grafite com um bebê desenhado e o nome NINA. Postei que ela estava chegando...
De alguma forma, eu sabia que nos conheceríamos em breve. Sabia que ela seria mais apressada do que eu. Só não imaginava que ela me daria um susto tão grande.