Como em toda tragédia de grande escala, o dia seguinte costuma ser lindo, pacífico. É estranho isso... Aquele ditado "após a tempestade, sempre vem a bonança". (Sim, sou movida a clichês.)

Foi um dos dias mais lindos que já vi. Talvez eu estivesse achando aquele dia mais bonito. Hoje sei que algo mudou em mim. Minha filha tão desejada tinha nascido.

O pai foi registrá-la e eu fiquei deitada, pois sentia muitas dores nas pernas (tente ficar quase 40 dias sem andar!) e quando ele chegou e me mostrou a certidão de nascimento, chorei e agradeci: "ela é uma pessoinha, com cpf e tudo".

Logo em seguida, minha GO chegou e eu pedi para receber alta. Precisava ir para casa. Respirar um outro ar. Estava esgotada daquele ambiente hospitalar. Queria por um momento poder dormir na minha cama.

Ela disse que seria difícil, que sair dali sem a Nina seria um novo desafio. Tentava me preparar para os próximos dias. Me lembrava de tudo que havíamos feito e que naquele momento eu precisava ser forte. Me lembrou que eu havia escolhido ser mãe e que seria uma nova etapa. "Pri, lindona! A Nina é um bebê viável, tenta confiar nos médicos. Você fez a sua parte, agora é com eles!"

Passei o dia todo postergando a minha alta. No final do dia eu precisaria liberar o quarto. Antes, passei na UTI para ver a Nina. Ela estava com icterícia (algo muito comum em prematuros) e estava fazendo fototerapia. Minha mãe pode entrar para vê-la também.

Ela parecia tão à vontade. Estava em uma posição de yoga. "Mamãe, não se preocupe. Eu estou bem!"  Minha mãe traduziu sua expressão para mim.

Fizeram alguns exames nela e estava tudo dentro do esperado. Ela ainda não podia ser alimentada com o meu leite e haviam feito um acesso profundo em seu bracinho. Ela iria ser alimentada por NP (nutrição parenteral). Esquece aquela imagem do bebê gordinho mamando horrores no peito. Esquece.

A psicóloga me aconselhou ir para casa descansar e assim o fiz. Não sem antes sentir aquela que é uma das piores dores do mundo. Deixar minha bebê ali. Não tê-la comigo. Nem barriga nem nos braços.

A Katinha me levou até a porta da maternidade e me deu um abraço: "preta, seja forte como sempre foi! Nós conseguimos! A Nina está bem e logo logo vai para casa!"

A recepcionista depois me confidenciou que precisou sair de perto pois ficou compadecida com a minha dor. "Eu fiquei mal naquele dia por você".

Ao chegar em casa eu chorava tanto que achei que iria passar mal. Um vazio enorme. Uma dor física. Hoje eu sei. Era mesmo. A primeira de muitas que a maternidade nos proporciona. Minha mãe me disse que ela se sentia assim todas as vezes que precisava se afastar de mim. Acho que estava aprendendo a ser mãe. Desconstruída. Mas ainda sim, mãe. Pedi desculpas por todas as vezes que fiz minha mãe chorar. É, ela estava certa. Sempre.

"Você vai chorar até não aguentar. Mas eu só permito que você faça isso hoje. Você não vai se vitimizar. Amanhã você vai acordar e vai estar inteira ao lado da sua filha. Ela precisa disso. Ela é forte e você também é".

Mãe, obrigada por me ensinar a ser mãe. Obrigada por ser minha referência de luta e força. Te amo!





Deixe um comentário