Há uns anos atrás antes mesmo de aventar a possibilidade de engravidar, fui mega inadequada com uma vizinha. Ela estava com seus dois bebês e ao perguntar as idades deles,  achei um dos bebês muito pequeno. Naquela época eu não tinha muito filtro e soltei: "nossa, ele é muito pequeno!"... Na hora percebi o desapontamento daquela mãe. Me senti super inapropriada (porque eu fui mesmo...) mas aprendi a lição. Não devemos comparar tampouco "criticar" os bebês.


Ao lembrar dessa situação até hoje me sinto mal... Eu jamais, em hipótese alguma deveria ter dito qualquer coisa. No máximo sobre como eles eram lindos (e eram mesmo) ou se ela precisava de alguma coisa, ajuda ou suporte. Mas eu não fazia ideia do que era ser mãe... mesmo.

Aqui cabe um parênteses gigante: amigas que um dia eu faltei ou fui omissa... Mil desculpas. Eu realmente não tinha a menor noção sobre o que vocês passaram. Vocês estavam certas o tempo todo. #abracinho #amãetambémprecisadecuidados

Desde que a Nina nasceu eu tenho sofrido com a "patrulha da curva normal". Foi assim que eu apelidei aquelas pessoas sem noção que adoram julgar o seu bebê. "Mas ele não anda?", "nossaaaaa, que bebê gigante!", "que bebê pequeno!", "está muito gordo, muito magro" ... É por aí vai. Toda hora alguém quer dar pitaco sobre seu peso e seu tamanho... Enche o saco.

Nada assusta mais do que esse tipo de comentário. Eu passei um dia inteiro sofrendo por achar que o perimetro cefálico dela era muito menor "do que deveria ser"... Tudo por causa de um comentário inoportuno. Mas depois disso aprendi a lição.

Minha bebê é perfeita, saudável e está ótima e se desenvolvendo no seu tempo. Sem pressa. Sem comparações. Vamos deixa-la em paz. Vamos permitir que ela se ame e se aceite do jeito que for. E que aprenda a respeitar o outro e suas diferenças. 

Uma dicona para vocês patrulheiros: APENAS PAREM! Vocês não imaginam como seus comentários são inapropriados. Cada bebê e criança tem seu tempo e biotipo... Chega de compararem bebês. Chega de quererem normalizar ou patologizar tudo e qualquer coisa. Por que ao invés disso, vocês não tentam ser mais gentis? Sabe?

Tá faltando cuidado, tá faltando empatia... É tão duro educar, criar. A gente já tem uma série de expectativas, medos, preocupações. talvez se as pessoas fossem um pouco mais solidárias, menos críticas as coisas ficariam beeeem mais leves. 

Então tá! Vamos exercer pouco mais de compreensão e amor? 

 Obrigada. De nada. 


Por ter sido prematura e ter tido uma sobrinha que também nasceu antes do tempo, sempre soube que a Nina teria um desenvolvimento diferente de um bebê nascido à termo com a mesma idade cronológica que ela. Na verdade, para avaliar os marcos do desenvolvimento dela precisamos corrigir sua idade.


A idade corrigida é o tempo de vida que ela teria agora caso tivesse nascido com 40 semanas. Por ter nascido com 6 meses, ela agora está completando 2 meses de idade corrigida e 5 meses de idade cronológica. Dizem que devemos calcular assim até o bebê completar 18 meses, mas eu prefiro aceitar o seu desenvolvimento no tempinho dela. 

Quando ela estava internada vi um post sobre "porque os prematuros são rockstars". Era um lista das 10 coisas mais legais do prematuro. Achei o máximo como aquele texto era leve e ao mesmo tempo falava sobre as dificuldades que eles enfrentam no primeiro momento de existência. 

Um bebê nascido bem antes do tempo como a minha filha pode apresentar uma série  de intercorrências que irão impactar em seu crescimento. O primeiro efeito é no peso e altura do bebê. Não queira comparar o tamanho de um bebê de 5 meses com o desenvolvimento da Nina. Ela é beeeem mais magrinha e menor. Tente você quadruplicar seu peso em 2 meses. Pois é, ela fez isso. 

Além disso, seu sistema nervoso terminou de se formar quando ela já havia nascido. Então é claro que embora ela consiga fazer algumas coisas que um bebê a termo também faz, seu desenvolvimento acompanha o de um bebê com a sua idade corrigida. 

O sistema imunológico do bebê é reforçado nas últimas semanas de gestação, logo a imunidade do prematuro tende a ser mais vulnerável e suscetível. TENDE, porque não necessariamente é uma regra. A minha filha tem uma vida normal e nunca teve nenhum problema de saúde. Mas convém nos primeiros meses evitar multidões, contato físico de outras pessoas e exposição a temperaturas baixas. 

Isso nos gerou um certo mal estar logo que ela veio para casa. Muita gente quis conhecê-la assim que chegamos da maternidade. Mas por ainda não ter tido o calendário de vacinação corrigido, precisamos evitar as visitas. Algumas pessoas nos compreenderam sem qualquer problema, outros mais ansiosos (nós entendemos!) ficaram chateados. 

Tenho certeza que essas questões com o tempo serão resolvidas ou minimizadas... Mas o que mais sinto sobre a prematuridade,  é ter um armário inteiro de roupinhas lindas e não poder usar. Ainda. Quase nada cabe. #dramaqueen #mãedeprematurasofre #representatividadetamanhoXXP

 Foi muito difícil encontrar algo que coubesse enquanto ela esteve internada. Alô, empreendedor do ramo têxtil, vamos ajudar as mamães de prematuros com umas roupinhas para nossos filhos ae! 

Hoje eu coloquei nela o primeiro sapatinho. E coube! Ficou um pouco largo, mas nada que uma meia ou um esparadrapo não resolvam. Nem preciso dizer que passei o dia inteiro admirando aqueles pés lindos e calçados.

E que venham as novas roupinhas, sapatinhos e acessórios. Pode parecer futilidade quando existe tantas outras coisas "mais importantes". Mas e você? Você agradece cada grama que o seu filho ganha? E quando ele passa a usar fralda M? Pois é. Hoje é assim que vivemos. Agradecendo e apreciando as menores conquistas. 




O peso do bebê prematuro é uma das coisas que mais preocupam seus pais e cuidadores. Como eu já escrevi anteriormente, a gente está sempre torcendo por cada grama alcançada. Logo que a Nina essa era a minha principal preocupação.

Na primeira consulta com o pediatra fizemos uma lista com todas as nossas apreensões. Calendário de vacinação seria aprazado por qual idade? A cronológica ou a corrigida? Em quanto tempo ela poderia dar um passeio ao ar livre? Quais cuidados da UTI seriam necessários em casa? Enfim, nossa lista era enorme. Mas a questão do aleitamento era algo que eu particularmente me interessava bastante.

Sempre idealizei a amamentação. Me imaginava com um bebê lindão acoplado ao meu seio. Era o meu sonho da maternidade perfeita. Eu não fazia ideia do quanto era difícil, doloroso, exaustivo.

Enquanto a Nina estava internada havia uma certa restrição à amamenta-la no peito. Digo isso, porque naquele período era muito importante que ela alcançasse logo o peso para poder receber alta e o bebê costuma perder peso quando começa a sugar o seio materno.

Assim aproveitei esse tempo apenas para treinar a pega, me sentir mais segura sobre as posições de aleitamento e estabelecer essa conexão entre nós duas. Tentava amamenta-la por uns 20 minutos e caso ela recusasse eu cedia e dava a mamadeira com o meu leite.

Quando a gente veio para casa eu fiz questão de aleitar. Comprei aqueles bicos de silicone, concha para fazer bico, vi vários tutoriais sobre aumento da produção de leite e sobre a pega perfeita.

Aqui cabe um “mea culpa”. Por ter aprendido a sugar com uma chupeta, minha bebê havia se acostumado com o bico de látex. Então para tentar adapta-la ao seio eu utilizei o bico artificial. Grande estupidez.

É difícil aceitar a impossibilidade em amamentar. Escutava as histórias de algumas mães que não conseguiram e não aceitava participar desta estatística. Talvez eu já tivesse aberto mão de tantas coisas sobre a maternidade, que ceder neste caso não era uma opção. Pelo menos não naquele momento.

Ela sugava o bico e continuava chorando de fome. Eu, desesperada, sem saber o que fazer, chorava junto. “Filha, por favor, mama!” Meu peito parecia que ia explodir, doía muito. Ela se contorcia toda, ficava cheia de gases, por conta do ar sugado. Para que ela se acalmasse eu acabava voltando à mamadeira.

Foi assim por alguns dias seguidos. Eu já estava quase desistindo de amamenta-la. Quando fomos no pediatra e vi que ela havia perdido quase 100g, eu me culpei, condenei meu egoísmo “você só está pensando em atender suas expectativas”. O pediatra por sua vez tentava me acalmar. “Se não conseguir, não vai ser por isso que ela vai deixar de crescer e ser um bebê saudável”.

Quando já estava quase me dando por vencida ela resolveu pegar o seio. Depois com a ajuda de uma amiga que é doula, consegui encontrar outras posições que facilitaram a sucção da Nina e nos livramos da chupeta.
Foi preciso coragem em tentar e aceitar as dificuldades sem esmorecer. Mas sobretudo a persistência e dedicação ao aleitamento. Sei que nem todas as mães conseguem. Como eu disse é muito complicado. Mas pelo menos dessa vez, a maternidade sorriu para mim.



Desde a descoberta da minha gravidez tenho acompanhado diversos blog sobre a maternidade. Uma das coisas que mais de chamava atenção e assustava era o pós-parto e o puerpério. 

Os relatos descrevem um período difícil, de grande investimento e labilidade emocional. São muitas as transformações. A adaptação abrupta àquela ausência do bebê ali dentro da barriga, as dores do pós-parto, o cansaço.

Enquanto eu tomava anticoncepcional tinha todos os sintomas do transtorno disfórico pré-menstrual (TPM). Uma semana antes eu começava a me sentir mal, ficava mais prostrada. Sentia muitas dores no corpo e meu humor ia parar no pé. Então já imaginava o que poderia acontecer.

No pré-natal eu já buscava maneiras de encontrar apoio para esta fase de transição. Comecei a pesquisar mais sobre os sintomas, procurei conversar sobre isso com o meu marido e minha GO. “Dizem que é um período de vulnerabilidade. Preciso que você seja meu amigo e tenha paciência”.

Encontrei alguns artigos discorrendo sobre o papel da indução e antecipação do parto no “baby blues”, os mecanismos neuroquímicos e me convenci que o melhor seria tentar um parto o mais natural possível. Todos me apoiaram. Parecia o plano perfeito.  

Quando a Nina nasceu eu parecia ter sido tragada para dentro de um furacão. Eu me sentia muito mal, do avesso. Meu corpo doía muito, minhas pernas não me obedeciam. Eu já não tinha mais coluna e o cansaço era enorme. Estava o tempo todo muito triste.  A vontade que eu tinha era dormir por algumas semanas.

Só que mãe de uti não tem tempo, tampouco condições para descansar. Não dá para deixar seu bebezinho sozinho. Você precisa estar lá. Você quer estar lá. Mas seu corpo não responde, não reage.

Eu sempre fui sensível, algumas pessoas me achavam “muito manteiga derretida, muito canceriana”. Sempre fui e agora eu estava mais ainda. Eu chorava por tudo. E me apiedava. Tinhas pensamentos catastróficos sobre a maternidade. Achava não ser capaz de dar conta.

Foi preciso buscar acompanhamento psicológico. Eu não queria ficar sozinha, mas não conseguia ficar perto de ninguém. Precisava mostrar austeridade e esperança. Mas por dentro eu estava péssima.

Aos poucos comecei a me sentir melhor. As dores diminuíram, consegui reestruturar meus pensamentos e fiquei mais ativa. Hoje ainda me sinto puérpera. Mas estou caminhando... Tenho me solidarizado com as amigas que se tornaram mães também. Tenho tentado compartilhar mais a minha experiência. Isso tem me ajudado muito.  Aos poucos estou me adaptando a esta nova Priscilla. Eu tenho gostado bastante dela. Embora ainda estejamos nos conhecendo, tenho descoberto que o meu avesso é a minha melhor versão.  Mais humana, mais sensível, mais atenta. 


Se tem uma coisa que não se pode negar, é que eu e meu marido somos um casal planejado. Demoramos quase 7 anos para nos casar, pois antes queríamos nos organizar financeiramente, aproveitar o namoro e alcançar certas metas profissionais. Depois, quando decidimos tentar engravidar, tentamos programar a melhor época de nossas vidas. Pragmáticos, eu diria. Para quase tudo.

Nossa bebê, por ter nascido quase 3 meses antes do tempo já chegou mostrando que se quiséssemos curtir essa nova etapa, teríamos, ainda que por algum período breve, aceitar suas demandas e regras. Não tivemos tempo para nada. Não houve foto mensal da barriga ou aquele ensaio em algum lugar bonito. Não houve tempo para o chá de bebê e muito menos de terminar seu quartinho. Mas o que eu mais sentia era por não ter tido tempo de assimilarmos a maternidade e paternidade.

Eu já tinha lido muita coisa sobre o bebê e seus primeiros meses. Mas não conseguimos discutir como iríamos educa-la, quais valores gostaríamos de transmitir e a divisão de tarefas. Eu e ele sempre fomos cúmplices em tudo. Mas dessa vez estávamos lidando com uma situação muito nova, é claro. Éramos pais de primeira viagem... E que viagem, hein?!

Levar dona perereca (eu adoro esse apelido, me lembra do quão animada minha bebê é...) para casa era mais um dos nossos desafios. A gente até tentou esboçar como seria a nossa nova rotina, como compartilharíamos as responsabilidades e horários e tentaríamos ter tempo para gente. Mas a verdade é que, como eu disse, Nina nos convidou (ou nos obrigou... Rs...) a quebrar nossos paradigmas.

O horário quem decidia era ela. Nossa disponibilidade e tempo também. A decoração e ajustes finais do nosso apartamento teriam que ficar para depois. A vida social, profissional e a dois, precisariam sofrer algumas alterações. E meio que intuitivamente concordamos.

Assim que a trouxemos para casa senti uma sensação de alívio. E desespero. É ambivalente mesmo. Desde seu nascimento sempre havia alguém nos ajudando a cuidar dela. Embora eu acredite ser assim para muitos pais e cuidadores com a chegada de um RN, ser responsável pelos cuidados básicos assusta e é maravilhoso. No nosso caso ainda tínhamos alguns medos e resquícios da UTI. "Como saberemos se ela está respirando direito?", "e se ela está mamando a quantidade adequada? ”, "E se estiver muito frio? ou muito calor?"... E se? Nós não sabíamos. Logo que chegamos em casa eu tinha receio dela ter algum probleminha de saúde, como gripe, alergia, cólica... E aí, o que fazer?!

Já tinha combinado com o pediatra que nos encontraríamos dali há 3 dias. "Mas e até lá?!" Quando a gente recebe alta da UTI, também somos orientados aos cuidados básicos, tínhamos algum respaldo sobre como proceder, mas não era só isso. Tinha algo para além. Hoje eu sei que era o medo de não sermos bons pais. De estarmos despreparados para cuidar de uma bebê prematura. De dar atenção, carinho e amor, mas não exagerar demais... Ou ter pena por tudo que ela viveu. Não queríamos que ela se sentisse vítima mas também não queríamos ser duros demais. 

Tem um livro chamado "crianças francesas não fazem manha". Eu havia lido alguns trechos dele... E ficava pensando: "com a nina vai ser assim, vai ser assado..." Hora para mamar, hora para dormir... Tudo no esquema. Mas agora seria tudo diferente. Ela precisava da gente. Do nosso amor e segurança.

Criação com apego. É isso! Vamos compartilhar a cama com ela sim. Chorou, a gente dá colo. E se reclamar ainda vamos passar o dia todo com ela aqui. Aninhada no nosso peito. O seio, disponível sempre.  O berço, só quando e se estivermos preparados. Todos nós, no nosso tempo.

Álcool gel, sim. Mas não vamos exagerar. Não precisa esterilizar o trocador a cada 10 minutos. Vale o bom senso. As visitas ainda não estão liberadas. Mas aos nossos pais a oportunidade de passar um tempo com ela. No colo. Beijo no pé e na cabeça estão liberados. "Não precisa colocar o capote. Nem a máscara, tia.".

E assim vamos nos conhecendo... E quem sabe a vida não se encarrega de colaborar com o aprendizado?


Que nossa intuição não falhe nunca. E que haja amor.


No dia seguinte a operação da hérnia inguinal a dra. Claudia pediu para realizarem todos os exames pré-alta da Nina. Refaz a ultra transfontanela. Tudo ok. Teste da orelhinha e exame de vista. Sem nenhum problema. Ok. Ecocardiograma. O canal continua aberto. "Vai fechar sozinho" segundo o cardiologista. Sumário da alta. Ok. 

"Quarta-feira está bom para ela receber a alta?". Ficamos tanto tempo esperando por esse dia que esquecemos do básico. Terminar nossa mudança e o quartinho dela. "Não dá, dra. Pode ser na sexta?" 

É... A gente precisava correr. 

Com a ajuda da família levamos tudo da casa da minha mãe para o nosso apartamento. Faltava apenas alguns detalhes no quartinho dela. "Ah, isso a gente faz depois, aos poucos". É engraçado isso. Ela ficou 2 meses internada e não tivemos tempo para terminar seu quarto. Acho que ainda tínhamos algum medo de algo dar errado. Dizem que o berço só pode ser montado quando o bebê nasce, para não dar mau agouro. Dessa vez, seguimos à risca. 

A semana parecia não acabar nunca. Aquela sexta-feira que não chegava. O Hugo estava correndo com as coisas no trabalho para poder tirar sua licença. Ai na quarta-feira quando fui dar o peito para a Nina a técnica pediu que eu ficasse apenas 15 minutos. "Oi, só isso? ah, para não atrasar a rotina... entendi.  Era procedimento padrão checar os sinais vitais a cada 6 horas. Eu entendia isso. Mas já tinha dado. Quando a enfermeira chefe me questionou: "mas por que vocês não vão para casa? Se você quiser sair com ela escondidinha embaixo do seu braço, eu vou fingir que não vi"...

Naquele dia eu fui à tarde para casa. E tomei uma decisão. Nina vai amanhã para casa. Nem que eu a tire de lá a pé. Hugo me avisou que talvez fosse complicado conseguir chegar a tempo. Dra. Claudia tinha me avisado que só poderia estender a alta da UTI até às 18:00hs, caso contrário só poderia liberá-la no dia seguinte. Pedi para nos liberarem no ultimo horário.

No dia da alta eu cheguei cedo na perinatal. A enfermeira Dani repassou comigo o passo-a-passo do banho. Escolhemos uma roupa para recém-nascido que cabiam 3 Ninas dentro. Fizemos alguns ajustes. Tiramos a foto dela para o site.

Minha "cunhada" havia me enviado o diploma que a Leleca recebeu quando recebeu a alta. Por muito tempo aquilo foi um sonho de consumo. O passaporte para a ida da minha bebê para casa.

A Dani me entregou o diploma com o nome mais lindo que eu já vi. Nele estava escrito Nina! ;)
Ela fazia parte da "turma de formandos da UTI - junho/2016".

Colocamos uma roupinha vermelha e ficamos aguardando todo mundo vir se despedir. A cada foto, um abraço. Um desejo de saúde. Mais lágrimas. Dessa vez de felicidade! Em abundância.

O relógio marcava 17:45hs e nada do Hugo chegar... Nossa família estava na recepção nos aguardando. Eu suava de nervoso e expectativas. Quando ele chegou eu nem queria aguardar a técnica nos levar até a porta da maternidade. Ela chegou. Iriamos para casa. Após 72 dias de internação na UTI neonatal e 36 dias na semi intensiva materna, estávamos encerrando um ciclo.

Quando chegamos na recepção fomos recebidos com balões e comemoração! Mais fotos. Aquela por tanto tempo esperada... A foto na entrada da maternidade. 


Estávamos cada vez mais próximos da alta, mas em uma manhã a dra. Claudia notou que a Nina tinha hérnia inguinal. O tratamento é cirúrgico e só pode ser realizado até os primeiros 4 meses de vida. A operação é bem simples e não atrasa a ida do bebê para casa. Mas ainda sim. Minha bebê que havia conseguido tratar o canal do coração sem cirurgia, não iria embora sem antes entrar na faca!

A cirurgia foi agendada para 3 dias depois. Pensa em uma pessoa ansiosa e preocupada. Agora eleva isso à 10° potencia. Era eu. E o pai. E a família toda. Eu tentava acalmar a todos. "Dizem que é moleza. O pós-cirúrgico é bem simples. Vai ser tranquilo". Não sei se eu tentava reassegurá-los ou a mim mesma. Minha bebê iria tomar anestesia geral. Caramba, tão pequena!

Naquela noite eu não dormi. Cheguei na uti antes das 9. Queria poder dar força e todo amor do mundo para a Nina. Ela já estava de jejum desde as 7 da manhã. Ficaria sem se alimentar até as 21:00hs. A cirurgia estava marcada para às 18:00hs. Mas antes da Nina outros dois bebês seriam operados. Na uti é assim. Algumas cirurgias ocorrem inclusive ali mesmo. Nesse caso, a Nina iria para o centro cirúrgico.

A medida que as horas avançavam eu ficava mais tensa. As técnicas e enfermeiras tentavam me acalmar. Em vão...  
Minha mãe chegou e logo depois o Hugo e meus sogros. A psicóloga deixou todo mundo ver a Nina. Ela já estava ficando irritada por estar sentindo fome. O pai também fica assim quando não se alimenta.

"Ela vai subir agora". Coração veio na boca. Fomos com ela até a porta do centro cirúrgico. Não podíamos passar dali. Lembrei quando eu passei por aquelas portas. Duas vezes. Na cerclagem e no parto. Estávamos juntas. Agora ela estava ali sozinha. "Ela é guerreira... Vai dar tudo certo".

O Hugo ficou ali esperando. Eu não conseguia... Estávamos no mesmo andar do berçário. Aquele que as famílias veem o bebê pela primeira vez através de um vidro. Ouvia gritos de felicidade ao fundo. Eu não conseguia relaxar... Desci com a minha mãe. Ficamos em oração. Meus sogros se juntaram logo em seguida.

"Filha, acho que já acabou... Vai lá ver"... Fui correndo até a porta do centro cirúrgico. Ela já tinha descido. A cirurgia havia acabado. Entrei como um furacão na uti... Lá estava ela, acordada e chorando muito. Era a fome. Agarrava a chupeta com tanta força que dava para ouvir a sua sucção através do vidro da incubadora... Ela não parava de chorar. Eu e o pai demos nossos dedos para ela segurar... Ela nos apertava com força. Eu só sabia agradecer... Minha bebê está bem.

"Todos da uti estavam torcendo por ela", disse a mãe que viu quando ela voltou. Ali era assim. Havia torcida organizada por aqueles bebês. Todos eles. Quantas vezes eu fui para a janela do box da Nina pedir por um bebê que não estava bem. A gente se apega mesmo. E sofre junto. Empatia, solidariedade. E amor.


"Perereca, agora chega! Nós vamos para casa!” 


Uma outra mãe de UTI já tinha me dado uma super dica sobre a sucção. Na verdade, eu preciso realmente agradece-la por me ajudar em muitos momentos. Desde a semi-intensiva materna ela já me dava forças. Mesmo sem saber. 

O quarto da Alê ficava bem ao lado do meu e todos os dias eu escutava altas gargalhadas vindo do seu quarto. "Que gente animada nesse quarto". Em muitos momentos aquilo me contagiava. 

O bebê quando está na barriga da mãe, começa a treinar sucção a partir da 34° semana. A Nina estava com 35 semanas de idade gestacional. (A tal da idade corrigida, depois explico com calma). Ela ainda se alimentava através da sondinha. Mas o próximo passo era treinar sugar a mamadeirinha. 

Para isso os bebês de uti precisam fazer fono. As mães auxiliam no treino da sucção. Pode ser um processo lento, cansativo, sobretudo para o bebê, que pode inclusive perder peso. 

A Alê me disse para oferecer a chupetinha para a Nina sempre que ela fosse ser alimentada através da sondinha. Criar uma espécie de arco-reflexo. Mesmo com o cpap eu já tentava dar a chupeta para ela. E ela já sugava direitinho.

A chupeta, tão abominada pela mãe perfeita que eu pretendia ser e que havia criado na minha cabeça (essas expectativas sobre a maternidade, ne?!) passou a ser uma grande aliada. Esse foi mais um desafio que dona Nina tirou de letra. Não demorou nem um dia para ela conseguir sugar 5 ml na mamadeira. 

Uma coisa interessante sobre a alta do bebê é o checklist dos pais de uti. Para estarmos "aptos" a levar nosso bebê para casa, precisamos ser capazes de cuidar dele. Então a gente aprende todos os cuidados básicos. Trocar fralda, verificar sinais vitais, colocar a roupinha, dar a mamadeirinha e o banho. É engraçado, né?! Você precisa fazer por merecer aquilo. Não dá para simplesmente pegar o bebê no colo e ir para casa. 

A enfermeira Monique agendou comigo o banho. Sim, você precisava marcar para poder assistir o banho do bebê. Eu quis ver a Nina tomando banho de ofurô. Já tinha lido alguns artigos sobre os benefícios do ofurô para o bebê. Lembra a experiência intrauterina, dizem.

No início fiquei um pouco insegura. Imagina segurar um bebê de menos de 2kg pelo pescoço? Imagina só... Eu tão estabanada, tentando mostrar destreza. Até que me sai bem... Estava curtindo aquilo ali. Tiramos várias fotos, filmamos o banho. Foi lindo e emocionante. 

Quando acabou o banho estava na hora do round. A dra. Claudia, responsável pela UTI 2, comentou sobre a evolução da Nina, disse que já havia previsão de sua alta, mas para isso ela precisava sugar os 45ml de sua dietinha na mamadeira. O peso já não era uma preocupação. Ela ia chegar rapidinho. Caso ela conseguisse sugar a dieta inteirinha em todos os horários do dia, poderiam tirar a sondinha. E ai, era só acompanhar seu ganho de peso e CASA! 

Meus olhos brilhavam... Já imaginava a fotinho no hall de entrada da perinatal. Aquela clássica que toda família tira. 

Dra. Claudia, antes de terminar o round da Nina me deu outro presentão. "Ela já foi para o peito da mãe?" "Não?! Então ela vai agora!" 

Um pequeno parêntese: O aleitamento materno não é fácil. Não importa o que digam. Até para aquele bebezão gordinho nascido à termo e sua mãe é difícil. Embora seja natural, não é inato. O bebê aprende a mamar. E a mãe a aleitar. Às vezes, precisamos de treino... De tempo. Eu sabia disso.  Algumas mulheres desistem. Compreensível. Como eu disse, não é fácil. Dói. Às vezes o leite demora a descer... Às vezes é a pega incorreta. Enfim... Agora imagina colocar no peito um bebê com uma boquinha tão minúscula? Meu bico era maior do que a boca da Nina. Só para vocês terem uma noção. 

Primeira tentativa. Ela se contorceu e começou a chorar. Não conseguia a pega. Segunda, terceira, quarta tentativa... A enfermeira nos ajudou. Segura o peito. Coloca ela de frente. Agarra, Nina! Pegou por 5 segundos e soltou. Tenta novamente. O suor começa a escorrer pela minha nuca. "Ela pegooooou, olhaaaaa!" 

Após 3 minutos largou o peito. Cansou. Mas não vamos desistir. Ela vai aprender. E eu também. 



Hoje eu tenho noção do quão importante foi poder contar com o apoio da nossa família, amigos e outros pais de uti. Às vezes uma palavra amiga, uma visita rápida ou um colo são fundamentais.

Quando ainda estava internada muitas pessoas foram nos visitar. Cada pessoa levava consigo um incentivo, carinho e sobretudo esperança. Me sentia acolhida.

Após o nascimento da Nina passamos a ser pais de uti e com isso passamos a integrar um seleto grupo de pessoas que precisam acreditar. Faz-se necessário abrir mão do controle, das atividades cotidianas e também do apego. Ser feliz com pequenas conquistas.

Certa vez eu estava muito tensa com a evolução da Nina. Tinha muitos medos. Eles eram diários. O risco da contaminação hospitalar, do erro médico, do bebê não engordar, entre outros. Temia não poder levar minha bebê para casa. Temia aquilo que não deve ser pronunciado, a morte.

Encontrei no meu marido meu arrimo. Era ele quem me lembrava o "brightside" das coisas. "Pri, não importa se ela vai viver 100 dias ou 100 anos. Nada tira da gente o privilégio de sermos seus pais. Eu sei que é duro, mas eu vou curtir cada momento de seu desenvolvimento, afinal quem mais pode ver seu filho terminar de ser gerado?".  Caiu um orelhão inteiro. (Me perdoem os nascidos após o ano 2000, rs... )

Nossos pais também foram incansáveis. No grupo de whatsapp da família tinha o “Nina News”. A cada novidade uma comemoração. A cada obstáculo amor e suporte.

Às vezes algum amigo dava um pulo na perinatal. Costumávamos tomar um café com eles naquela horinha da mudança de plantão. Eles entendiam nossa limitação de tempo.

Nos aproximamos de outros pais de uti. Estes compreendiam como ninguém tudo que acontecia com a gente. E nós com eles. Sabe aquela frase: "juntos somos mais fortes?!" Era assim mesmo. Nós torcíamos pelos seus bebês e eles pela Nina. Costumávamos nos encontrar pelos corredores e sempre tinha uns 5 minutos para comentarmos os highlights do dia. Foram muitas famílias. Muita gente incrível e resiliente. Muitas amizades que esperamos carregar para o resto da vida. Seremos sempre agradecidos pela troca.

Algumas vezes ficávamos sabendo que um amigo distante, conhecido, vizinho, chefe, paciente, enfim, tanta gente que nem consigo imaginar, estava torcendo e rezando pela Nina. Era bom saber o quanto ela era querida. Seu nome esteve em tantos grupos de oração que vou ficar devendo até minhas duas próximas reencarnações o agradecimento. Rs... Mas valerá a pena. Tenho certeza. Esse karma eu faço questão de transformar em dharma.

Havia também aqueles que estavam ali doando o seu tempo e sua vocação. O corpo clínico. Médicos, especialistas, residentes, estagiários, fisioterapeutas, enfermeiros, técnicos, auxiliar da limpeza e até mesmo o segurança da recepção. Cada um nos ajudava de uma forma. Desde um esclarecimento, um posicionamento mais técnico até mesmo um abraço reconfortante. Às vezes um aceno de cabeça já era suficiente.


Não faltou empatia. Não faltou cuidado, tampouco amor. E é por isso que pudemos nos doar tanto. Porque também tínhamos tudo isso em abundância. 


Após desmamar por completo do cpap, o próximo passo seria começar a sugar. Mas antes disso o bebê precisa chegar a 1.8kg para sair da incubadora para um bercinho aberto. Quando ele vai para o bercinho, a mãe pode ajudar trocar a fralda, checar os sinais vitais e pega-lo no colo quando quiser.

A Gaby, já tinha me dito que naquela noite ela seria transferida para a UTI 2, para onde vão os bebês que requerem um cuidado menor.

Quando voltamos do intervalo para troca de plantão, dona perereca estava na uti 2. "cadê o frequencimetro?" "E se ela fizer uma apneia?" "Priscilla, desapega. Ela está ótima. O proximo passo é casa... Como você vai fazer quando ela estiver dormindo?" 

Na manhã seguinte encontrei a Adriana, auxiliar de limpeza que me acolhia quando eu ficava mal. "Ué, cadê minha brigadeirinho?!" Era assim que a Adriana a chamava. Por conta da estampa do vestido que minha mãe havia feito para a Nina.

Eu e o Hugo olhamos para a direção da incubadora da Nina e não a vimos. Meu coração veio na boca. Quando entramos na uti, adivinhem?! Ela estava toda enroladinha no bercinho. 

Imediatamente coloquei o capote e a coloquei em meus braços. Era tão bom não precisar pedir autorização para colocá-la no colo. Não queria ir para casa. Queria ficar ali para sempre. "Cuidado para não afogar sua filha", brincou a enfermeira. Eu não conseguia parar de chorar. 


Saímos da uti no ultimo horário. Naquele dia eu só conseguia agradecer. Por tudo. Estávamos cada dia mais próximos da alta.