Se tem uma coisa que não se pode negar, é que eu e meu marido somos um casal planejado. Demoramos quase 7 anos para nos casar, pois antes queríamos nos organizar financeiramente, aproveitar o namoro e alcançar certas metas profissionais. Depois, quando decidimos tentar engravidar, tentamos programar a melhor época de nossas vidas. Pragmáticos, eu diria. Para quase tudo.

Nossa bebê, por ter nascido quase 3 meses antes do tempo já chegou mostrando que se quiséssemos curtir essa nova etapa, teríamos, ainda que por algum período breve, aceitar suas demandas e regras. Não tivemos tempo para nada. Não houve foto mensal da barriga ou aquele ensaio em algum lugar bonito. Não houve tempo para o chá de bebê e muito menos de terminar seu quartinho. Mas o que eu mais sentia era por não ter tido tempo de assimilarmos a maternidade e paternidade.

Eu já tinha lido muita coisa sobre o bebê e seus primeiros meses. Mas não conseguimos discutir como iríamos educa-la, quais valores gostaríamos de transmitir e a divisão de tarefas. Eu e ele sempre fomos cúmplices em tudo. Mas dessa vez estávamos lidando com uma situação muito nova, é claro. Éramos pais de primeira viagem... E que viagem, hein?!

Levar dona perereca (eu adoro esse apelido, me lembra do quão animada minha bebê é...) para casa era mais um dos nossos desafios. A gente até tentou esboçar como seria a nossa nova rotina, como compartilharíamos as responsabilidades e horários e tentaríamos ter tempo para gente. Mas a verdade é que, como eu disse, Nina nos convidou (ou nos obrigou... Rs...) a quebrar nossos paradigmas.

O horário quem decidia era ela. Nossa disponibilidade e tempo também. A decoração e ajustes finais do nosso apartamento teriam que ficar para depois. A vida social, profissional e a dois, precisariam sofrer algumas alterações. E meio que intuitivamente concordamos.

Assim que a trouxemos para casa senti uma sensação de alívio. E desespero. É ambivalente mesmo. Desde seu nascimento sempre havia alguém nos ajudando a cuidar dela. Embora eu acredite ser assim para muitos pais e cuidadores com a chegada de um RN, ser responsável pelos cuidados básicos assusta e é maravilhoso. No nosso caso ainda tínhamos alguns medos e resquícios da UTI. "Como saberemos se ela está respirando direito?", "e se ela está mamando a quantidade adequada? ”, "E se estiver muito frio? ou muito calor?"... E se? Nós não sabíamos. Logo que chegamos em casa eu tinha receio dela ter algum probleminha de saúde, como gripe, alergia, cólica... E aí, o que fazer?!

Já tinha combinado com o pediatra que nos encontraríamos dali há 3 dias. "Mas e até lá?!" Quando a gente recebe alta da UTI, também somos orientados aos cuidados básicos, tínhamos algum respaldo sobre como proceder, mas não era só isso. Tinha algo para além. Hoje eu sei que era o medo de não sermos bons pais. De estarmos despreparados para cuidar de uma bebê prematura. De dar atenção, carinho e amor, mas não exagerar demais... Ou ter pena por tudo que ela viveu. Não queríamos que ela se sentisse vítima mas também não queríamos ser duros demais. 

Tem um livro chamado "crianças francesas não fazem manha". Eu havia lido alguns trechos dele... E ficava pensando: "com a nina vai ser assim, vai ser assado..." Hora para mamar, hora para dormir... Tudo no esquema. Mas agora seria tudo diferente. Ela precisava da gente. Do nosso amor e segurança.

Criação com apego. É isso! Vamos compartilhar a cama com ela sim. Chorou, a gente dá colo. E se reclamar ainda vamos passar o dia todo com ela aqui. Aninhada no nosso peito. O seio, disponível sempre.  O berço, só quando e se estivermos preparados. Todos nós, no nosso tempo.

Álcool gel, sim. Mas não vamos exagerar. Não precisa esterilizar o trocador a cada 10 minutos. Vale o bom senso. As visitas ainda não estão liberadas. Mas aos nossos pais a oportunidade de passar um tempo com ela. No colo. Beijo no pé e na cabeça estão liberados. "Não precisa colocar o capote. Nem a máscara, tia.".

E assim vamos nos conhecendo... E quem sabe a vida não se encarrega de colaborar com o aprendizado?


Que nossa intuição não falhe nunca. E que haja amor.


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