Nos dias seguintes a minha internação tentei criar uma nova rotina. O quarto 6 da semi intensiva materna era o meu bunker, o nosso útero. Com a ajuda do meu marido e da nossa família, transformamos aquele ambiente hospitalar na filial da nossa casa.

Trouxeram objetos de decoração, fotos, flores e uma smartv. Cada visita trazia um amuleto, oração ou uma palavra amiga. O quarto foi decorado com desenhos para a minha bebê. Fizemos uma oração e colocamos na porta de entrada. Pedíamos paciência, cuidado e amor. Era tudo o que eu e ela precisávamos. 

O Hugo se mudou de mala e cuia para a maternidade. Todos os dias nossa família ia nos visitar. Minha mãe e minha sogra traziam sempre um presente para a Nina e para mim. Começaram a encher a cama do hospital de bichinhos.  Aos finais de semana o quarto virava uma mesa de bar. Vários amigos foram nos ver.

Fui estreitando laços com as técnicas em enfermagem. Elas vinham checar meus sinais a cada 3 horas. Aproveitavam para bater um papo, fazer uma oração, trazer uma boa notícia. Recebemos toneladas de amor e cuidado.  Muitas pessoas colocaram nossos nomes em diversas religiões. Eu me sentia agradecida diariamente. 

Cada semana vencida tinha uma comemoração. A família se reunia e fazíamos planos para quando fossemos para casa com a Nina. Meu marido e minha cunhada já haviam visitado o corredor da UTI neonatal. Ali não faltam histórias e fotos de bebês prematuros extremos. A cada semana eles diziam: "Nina já é maior e mais pesada do que aquele bebê". Na perinatal o menor bebê nasceu com 23 semanas pesando inacreditáveis 295g. Hoje é uma linda criança sem nenhuma sequela.

Da cama eu só conseguia ver a pedra da gávea. Não mais do que isso. Aquela imagem precisava ser nosso horizonte. Eu precisava desconectar do mundo lá fora... Ali era o melhor lugar do universo.

Disse adeus às fotos da barriga que tirava todo mês no espelho do meu banheiro. Tchau, privacidade. Todas aquelas etapas da gestação tranquila, au revoir. Bye bye, fotos na praia, chá de bebê e exibir o baby bump por ai.  Eu estava abrindo mão de ser grávida para ser mãe. 

A coluna começou a dar os primeiros sinais de sobrecarga. Aquela maca não iria suportar o nosso peso. Foi necessário a ajuda da fisioterapia e dos cuidados paliativos da enfermagem. O banho era feito no leito. Eu já não tinha mais pudor algum. A cada 3 horas meus sinais eram aferidos e toda noite precisava fazer uso de clexane para evitar a trombose. Já não tinha mais tônus muscular e nem espaço nas pernas e braços para aquele "furinho dolorido". 

A noite eu tinha medo de dormir. Fazia sempre uma prece. Pedia cada dia mais força e tempo. Pedia a cura da IIC. Pedia para minha filha viver e ser saudável. Dizem que nossa senhora não nega ajuda a uma mãe.

Conversava com o meu corpo, pedia para ele cooperar. Eu precisava terminar de gestar minha bebê. Ele tinha que aguentar. Ficava imaginando uma linha imaginária cozendo o meu colo. Imaginava que a bolsa amniótica voltava para dentro do útero.


 Meu foco era aquele rosto que se parecia tanto com o pai. 


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