A rotina de uma UTI neonatal é uma realidade para a qual ninguém
está preparado. Eu já sabia como funcionava. Minha mãe havia me contado. Minha
"cunhada" também. Há 3 anos tive uma "sobrinha" que nasceu
no dia do meu aniversário, com 31 semanas de gestação. A história se repetia.
Além disso, enquanto estava internada, fiz um intensivão com a
ajuda da Lyana e da Carol, a psicóloga e a chefe da enfermagem da uti. Mas nada
te prepara para aquilo. Aqueles alarmes tocando a todo momento. Todos aqueles médicos,
fisioterapeutas, técnicos e enfermeiros. A sensação de estar ligada no 220v.
Aquelas famílias. A vida conectada àqueles fios e aos acessos venosos. As mães
de uti e suas histórias. São muitos casos. A gente nem imagina o quanto. Há
muita dor e medo. Mas também muito amor e esperança.
A Nina ficou internada na
UTI 1, que é para onde os bebês mais graves e prematuros extremos vão ao
nascer. Ali são 8 boxes com 2 incubadoras em cada box. Você não pode olhar para
o bebê que está na outra incubadora tampouco chegar perto dela. Risco de
contaminação. O foco precisa ser apenas no seu bebê.
As mães de UTI têm quase o
mesmo semblante e não é muito difícil identifica-las. São aquelas que chegam
antes das 9 na maternidade. Sempre carregando uma sacolinha com fraldas,
gorrinhos, luvas e sapatinhos. Hora estão sorridentes, hora estão desesperadas.
Carregam seus filhos no coração. O tempo todo.
Somos mais atentas a tudo
que acontece dentro da UTI e a qualquer alarme disparado olhamos correndo para
os monitores que ficam no aquário que é a sala dos médicos.
Também estamos sempre conversando com médicos sobre nossos bebês.
E entre si. Nos tornamos especialistas naquela linguagem técnica e nos
procedimentos. Eu lembro de ter ficado surpresa quando cheguei. “caramba,
quanta gente da área médica”.
Encontrei nessas mães empatia e apoio. E força. Muita! Um amor sem
igual por aqueles que decidiram já nascer com emoção.
Os pais de uti neonatal
aprendem a ler o monitor que mostra a frequência cardíaca, respiratória e a
saturação. Aprendemos a interpretar as informações do "round", quando
os médicos discutem a evolução do bebê.
Aprendemos a confiar e ter paciência.
Como o Hugo costumava dizer.... Ver nossos bebês terminarem de ficar
prontinhos.
Nos primeiros dias, eu me
assustava com cada alerta do monitor. "Isso foi uma apneia ou uma
bradicardia?"
Aprendi o que significavam
aqueles códigos no prontuário da enfermagem.
Aos poucos fui me inteirando
da rotina e entendendo como seriam os próximos dias ali dentro. Me conectei a
outras mães. Conversávamos no corredor sobre a evolução dos nossos filhos. “A
dieta do Tutu aumentou”, "Hj o Dani
engordou 10g". Sim, a gente aprende
a valorizar cada grama conquistada. "A nina fez cocô em todos os horários
e não deixou resíduo", "isso deve ser refluxo", "pede para
não aumentar muito a oferta de O2. Tenta deixar seu bebê rodando em
21%"... E por ai vai.
Aprendi a agradecer por cada
dia. Aprendi a viver em uma eterna montanha-russa. Essa é a melhor analogia
para a experiência de estar em uma uti neonatal. Tentava sempre ser empática ao
sofrimento alheio sem meus mecanismos de defesa. Aprendi a dar colo e receber
colo. A torcer e rezar por todos aqueles bebês e suas famílias.
Acompanhei da forma mais
lacerante a perda de um bebê de outra família que estava no box ao lado. Torci
por aquela bebê mais debilitada. Vi a alegria daqueles pais em levar seu bebê
para casa com saúde. Vi médicos e enfermeiros chorarem quando um outro
bebê não resistiu. Pude consolar uma técnica que chorava por ter "perdido
seu filho". É assim que carinhosamente elas chamam os bebês
prematuros.
Criei laços de afeto com
aqueles profissionais que tratavam tão bem da Nina. Saia de perto quando era preciso
fazer algum tipo de procedimento. Agradecia por cada gesto e cuidado.
Aprendi a viver um dia de
cada vez.
"Logo logo seremos nós
a atravessarmos aquela porta ali, filha! Nós vamos para casa!"