Enquanto a Nina estivesse internada, eu e o Hugo decidimos ficar
morando com a minha mãe. Eu não conseguia entrar no meu apartamento. Ver o
quartinho dela inacabado e não ter ela ali acabava comigo.
A rotina era bem puxada. Eu
acordava todos os dias as 07:00hs da manhã. Tomava banho correndo e ia para
perinatal. Chegava lá antes das 9:00 para poder passar primeiro no lactário e
garantir a dietinha da manhã.
Assim que liberavam a entrada dos pais, eu corria para o box
número 1. Todos os dias sentia meu coração parar por alguns segundos. A gente
nunca sabe o que vai encontrar pela frente. Eu sempre tinha medo de ter uma notícia
ruim. Aquele corredor entre o lavatório e a porta da UTI 1 parecia ter 1km.
A Nina, por outro lado, parecia alheia à tudo isso. Após o
tratamento para fechar o canal arterial, ela parecia evoluir super bem. As apneias
e as bradicardias diminuíram e eu já começava a desacostumar com o barulho do
monitor alertando quando havia queda de saturação e da frequência cardíaca.
Comecei a me permitir
comemorar cada conquista. Passava o dia todo ao lado de sua incubadora
conversando com ela. Na hora do almoço eu ia para casa. Voltava para a
maternidade antes das 16:00hs para poder conversar com os médicos. Depois
ficava até as 19:00hs com a Nina e só saia novamente quando mudava o plantão médico.
Ai eu ia novamente para o lactário.
O Hugo tentava sempre chegar
antes da mudança do plantão e costumávamos ficar babando nossa filha miudinha. “Já
voltamos, filha!”...
Às 20:00hs liberavam nossa
entrada. Esperávamos a hora da pesagem. Era o ponto alto do dia. Um bebê só
recebe alta da UTI quando estiver pesando 2.1kg. Então cada 10g era comemorado
com abraços nas técnicas e dancinha da vitória. #ÉTETRAAAAAA!! #BEMASSIM
Antes de ir embora, eu
rezava com a Nina. Agradecia a oportunidade de ser sua mãe e a parabenizava
" por mais um dia vencido". Encerrava o ritual noturno dizendo
para ela "filha, amanhã mais um dia a vencer. Estarei aqui com você, boa
noite!"
Ao longo da nossa estadia,
tentávamos conhecer um pouco da história de quem ficaria com ela. A cada dia
uma pessoa diferente. Um cuidado diferente. Eu me despedia através do vidro na
saída do box. "Por favor, fica bem meu amor! Eu te amo".
Essa era a nossa rotina
diária. Inclusive aos finais de semana. Cada vez que precisávamos fazer alguma
coisa na rua e tínhamos que nos ausentar do lado dela, eu me culpava. Não
conseguia ir ao mercado ou sair para jantar fora. Só pensava nela ali, sozinha
dentro daquela incubadora.
O meu marido foi incansável.
Embora tentasse me demover daquele processo autocomiserativo, ele respeitava
meu sofrimento. Cansou de dirigir até a porta de algum lugar e voltar correndo
comigo para a uti. Eu não queria ficar longe dela.
Chegava em casa exausta.
Tomava um banho e as vezes comia alguma coisa. Arrumava a bolsa da maternidade
com roupinhas que cabiam em bonecas e ia dormir...
Todos os dias era a mesma
coisa. E cada dia, um dia a menos...