Quando desci na UTI lembro que me achei
em um filme de sci-fi. Meu marido já tinha ido lá e sabia aonde e como a nossa
filha estava. Achei meio surreal aquele hall de entrada e o lavatório. Todo
aquele passo-a-passo para lavar as mãos. Fiquei pesarosa, imaginando quantas
vezes teria que fazer aquele ritual para poder encontrar minha filha. Dali já
conseguia ouvir os alarmes e barulhos dos monitores. Acho que nunca mais vou
esquecer daqueles sons.
Logo que cheguei ao lado da incubadora
da Nina, a dra. Renata veio conversar com a gente. Eu não conseguia olhar
direito para as outras pessoas e aqueles bebezinhos naquelas caixas
transparentes. Tinha medo de me contaminar com aquele ambiente. Talvez ainda
tivesse alguma esperança de ser tudo um pesadelo. Ela nos explicou que embora
fosse uma prematura extrema, a Nina estava ótima, mas ainda era muito incerto
saber sua evolução. Pediu que ficássemos sempre ao lado da sua incubadora e
caso houvesse alguma dúvida, poderíamos conversar com os médicos.
Eu estava tão atordoada com todas aquelas informações, sons, sensações que não sabia o que dizer. Só pensava se minha filha iria sobreviver sem nenhuma sequela. "Ainda é cedo para dizer". Quanto tempo ficaríamos ali? O que enfrentaríamos pela frente?
Na hora lembro que fiz uma piada
idiota: "dra. Você está falando que minha filha é muito prematura, mas ela
não sabe disso. Se acha uma bebê nascida à termo". Dra. Renata me olhou
fixamente. Já devia estar acostumada a negação.
Era assim que eu queria que ela fosse.
Hoje eu sei o quanto é difícil desconstruir a imagem do bebê gordinho. Minha
filha mal cabia na palma da mão. Sua pele era muito fina e mal conseguíamos ver
sua fisionomia. "Todo prematuro tem a mesma cara". Ela era tão frágil
que era aconselhado o mínimo manuseio em seu corpinho. Sua incubadora era
umidificada por conta da pele. "Toquem nela com cuidado".
Naquele dia precisei de tempo. Voltei
para o quarto e pedi para me deixarem dormir um pouco. Queria que tudo aquilo
fosse um sonho. Assim, bem clichê mesmo. Queria ter tido o nome com aquela
moldura linda na porta do quarto. Queria ter tido a musiquinha do berçário
tocando. Queria fotos na sala de parto e do bebê enrrugadinho e um apgar
10/10.
Mas entendi que não era o que eu
queria. Quem mandava ali não era eu. Era a minha filha. Aquela pequenininha que
estava lutando bravamente por sua vida.