Por ter nascido prematura, sempre soube dos riscos e cuidados necessários a um bebê que nasceu bem antes do tempo. Mas também conhecia a incompetência istmo cervical (IIC). 

Comunidade médica, um favorzinho. Vamos mudar esse nome ae. Nunca te pedi nada. Mas nos chamar de "incompetentes" não ajuda em nada no processo. #flw 

A IIC é uma incapacidade do colo uterino em sustentar o peso gestacional. A medida que a gravidez avança, há um encurtamento ou apagamento do colo e, consequentemente, o risco de um aborto tardio. Geralmente, este problema ocorre no final do segundo trimestre e o bebê ainda não está pronto para nascer. Infelizmente, o diagnóstico costuma ser feito após algumas perdas gestacionais anteriores sem causa aparente.

 O único tratamento possível é através da cerclagem, um ponto que fecha o colo do útero. Costuma-se indica-lo entre a 13° a 16° de gravidez, logo após a realização da translucência nucal. Ainda sim, é recomendado repouso absoluto e o risco de parto prematuro é alto.

Esse cenário sempre foi assustador. Hoje não sei se eu sempre tive medo de ter a IIC ou se de alguma forma intuitiva eu sabia que havia sido contemplada nessa loteria genética. 

O fato é que por muito tempo posterguei a maternidade por não me sentir apta a lidar com esse problema. 

Quando eu e meu marido decidimos nos tornar "tentantes", tive um sangramento importante. Estávamos de férias na Disney e eu não parava de sangrar. Meu ginecologista dizia ser por readaptação do meu corpo após ter tomado pílula por tantos anos.
Eu sabia que tinha algo errado e decidi buscar uma segunda opinião. Assim, descobrimos que haviam 2 pólipos na entrada da minha trompa direita. Confesso nem ter pensado duas vezes quando a médica disse que o tratamento era cirúrgico. Marcamos para semana seguinte. Deu tudo certo e eu estava confiante. Eu iria engravidar. Isso não seria um problema. 

Operei o pólipo em agosto e em outubro tive um beta positivo. Um dia, ao sair para trabalhar comecei a me sentir muito tonta, tive ondas de calor. O meu seio doía muito e a menstruação estava um pouco atrasada. Eu estava grávida de 3 semanas. Sim, eu e meu bebê tínhamos pressa pelo visto...

Logo no início da minha gestação eu passei muito mal. Foram muitos dias sem conseguir colocar nada para dentro. Minha alimentação era constituída de picolé de limão e macarrão cabelinho de anjo. Às vezes, nem isso. Precisei faltar alguns dias ao trabalho. Na época eu estava em fase de finalização e defesa do meu doutorado. Aquele período que você testa a sua sanidade. Foi muito difícil... 

No dia da minha defesa de doutorado, ao levantar para me arrumar, percebi um sangramento intenso. Corremos para a perinatal e lá foi identificado um hematoma subcoriônico. Eu perdi tanto sangue que nem a médica sabia dizer como nós estávamos bem. Eu e o bebê. 

"Ufa! O bebê está bem, ele só queria dar parabéns ao papai" (sim, foi no dia da minha defesa do doutorado e aniversário do meu marido). Como eu estava na 10° semana da gestação, a obstetra recomendou repouso absoluto por 20 dias. Eu precisava reduzir minhas atividades e o nível de estresse. Estávamos em dezembro e consegui desmarcar meus atendimentos e adiar minha defesa. 

Passei as festas de fim de ano em casa, entre enjoos e sensação de desmaio. Era maravilhoso #sqn precisar correr para um banheiro mais próximo, enquanto todos se refastelavam da ceia de natal. Pelo menos, não sofri tanto com o medo da Zika, pois passava o dia todo dentro de casa no ar condicionado. 

Os enjoos começaram a reduzir no início de fevereiro e eu me sentia muito melhor. Era o "glow" da gravidez. Me sentia disposta, feliz e estava me achando mais bonita.  Foi quando comecei a curtir minha barriga. Já sabíamos o sexo do bebê. Era uma menina. A mais desejada e amada. Ela começou a se mexer... E a cada sinal de sua vida em mim, eu morria de amores. 

Passei o carnaval curtindo meu "baby bump"... Consegui agendar minha defesa para o final de fevereiro. Programávamos nossa mudança. Sim, somos desses. Tudo ao mesmo tempo. Hoje eu sei que eu deveria ter desacelerado, mas esse foi o preço de ter sido tão workaholic. Fuén para gente. 

Conseguimos programar uma viagem de final de semana para penedo. Estava tudo ótimo. Eu e o Hugo pudemos relaxar, nos conectar e planejar a vida com a nossa filha. Havia tido uma consulta do pré-natal em que fui elogiada. Estava ótima de saúde e a nossa bebê estava se desenvolvendo super bem... 

Após 3 dias da minha banca de doutorado começamos a fazer a mudança para o apartamento. Eu estava me sentindo exausta. Mal conseguia organizar as minhas coisas, me sentia pesada, indisposta. Quando fomos comprar algumas coisas que faltavam, senti uma dor, tipo uma cólica no baixo ventre. Mas logo a dor passou. Não durou nem um minuto. Fiquei em alerta, mas por não ter sentido novamente, abstraí. 

Na segunda-feira fomos fazer a ultra morfológica do 2° trimestre. Me recordo ter dormido muito mal na noite anterior, me sentia angustiada, apreensiva. Não sei dizer o motivo. Fiquei pensando se não deveria ir na emergência. Atribui ao cansaço, os problemas familiares e a rotina acelerada. Quando chegamos na consulta relatei ao médico que não estava me sentindo muito bem. Ele me orientou desacelerar, curtir a gravidez. Outro fuén para mim...

Logo que ele começou o exame notei que havia algo muito errado. Eu estava entrando na 22° semana e após ter feito algumas ultras, já sabia identificar aqueles borrões (que também me lembravam placas de Rorschach). No meu exame apareciam duas bolsas enormes... Duas manchas pretas... 

O semblante do obstetra mudou. Ele parecia apreensivo. Na hora eu lembrei das histórias da minha mãe. "Meu colo está aberto! Meu Deus!"... O médico só confirmou meu achado com a cabeça. Me pediu calma. CALMA?! "Dr. Eu estou com 22° semanas, minha bebê não pode nascer agora!".

"Você quer ser mãe? Então tente manter a calma. Vai dar tudo certo. Tenha fé... Estou ligando imediatamente para a sua GO. Mas por favor, não se mexa, fique deitada!" 

Ao escrever sobre a descoberta da minha IIC me sinto como em um filme alternativão. Nada faz sentido. Parecem fragmentos de um evento, tipo aqueles filmes contados em sequência inversa... "Amnésia", sei lá. 

O dr. Burlá mandou que fossemos correndo para a perinatal. Minha médica estava indo para me operar! Me orientou a permanecer deitada o tempo todo e não me mexer. Se esse era o preço para eu ser mãe, eu pagaria à vista. 


Lembro de estar deitada no banco de trás do carro, pensando no trânsito e na paisagem. Me questionei quando eu voltaria a ver a rua. Ou se a chuva torrencial iria alargar a avenida da maternidade. Se a minha obstetra chegaria a tempo de realizar minha cerclagem. Pensava no rostinho lindo e perfeito da minha bebê que eu acabara de ver naquela ultra. 


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