A Nina nasceu super bem. Embora fosse
muito pequena, ela estava ótima para a sua idade gestacional. Assim que ela foi
para a uti, deixaram o Hugo vê-la. Lembro que ainda estava aérea por conta do
parto, mas quando ele me mostrou a primeira fotinho dela, me emocionei
horrores.
"Você é perfeita, filha! Nasceu tirando onda! Aqui, mozi... Parece que ela está falando ao celular. Que fofa!" A luzinha em seu bracinho era o oxímetro. Aquele aparelhinho que eu mal conhecia e já curtia pacas. Nós teríamos, em breve, uma relação ambivalente. Mas naquela fotinho ele nos dava a impressão que a Nina estava de boas.
Ela era idêntica ao pai. Muito cabeluda. Linda! E emburradinha. "Me tiraram do bem bom!" Ou "no flashes, please!" Talvez fosse isso que ela estivesse querendo dizer.
Eram 5 horas da manhã quando voltei para o quarto e consegui cochilar. Já sabia que a uti permitia a entrada dos pais a partir das 9 horas da manhã. Pedi que chamassem a Carlinha, uma técnica que se tornou amiga, mãe, cúmplice da nossa luta. Ela me ajudou a levantar, pois eu estava há 36 dias deitada. Estava muito fraca. Me ajudou a tomar banho, vestir uma roupa e me preparar para encontrar a Nina. Aproveitou para trazer as primeiras notícias da UTI. "Ela está bem, todos estão impressionados com sua evolução clinica". Parabéns, a Nina é linda e guerreira".
Eu era mãe. Em menos de 12 horas ela tinha deixado minha barriga. "Filha, me perdoa. Eu queria você aqui comigo". Culpa. Muitas mães de UTI a sentem. Mesmo eu sabendo que havia feito o impossível, que a ICC é uma doença silenciosa e não há nada que se possa fazer, mesmo assim eu me sentia mal. Eu queria ela ali comigo... "Esse colo estupido. Meu corpo nos traiu"...
É uma sensação muito estranha dar adeus à barriga. Talvez se pudéssemos ter tido mais tempo juntas, talvez eu não me sentisse tão oca, aquele vazio irreparável. Doía demais. Até hoje, tem horas que dói. Mas agora eu era mãe de uma prematurinha. A bebê mais valente.
Eu não tinha vencido a incompetência istmo cervical, mas tinha certeza que a Nina venceria a prematuridade extrema.